
Será difícil o eleitor de 2010 se contentar com a veiculação dos programas eleitorais por meios que não sejam interativos.
O voto do internauta em foco
Por Dora Kaufman e Pedro Cabral, para o Valor, de São Paulo
23/10/2009
Na recente votação da minirreforma eleitoral no Congresso, a internet foi preservada como espaço democrático. Nas eleições de 2010, os usuários poderão se manifestar livremente sobre os candidatos - garantindo-se o direito de resposta e vetando-se o anonimato. O desa-fio seguinte é entender a dimensão dessa conquista à luz do atual engajamento dos brasileiros nos meios digitais, e como usá-la em proveito do aperfeiçoamento do processo eleitoral.
No artigo "Nova mídia elege e fiscaliza", publicado em março no Valor, abordamos o tema do papel das mídias digitais nos processos eleitorais. Dissemos acreditar que o uso intensivo dessas mídias na campanha presidencial de Barack Obama mudaria definitivamente a dinâmica das futuras campanhas eleitorais e, por meio de dados estatísticos, tentamos demonstrar que o Brasil está maduro para uma campanha eleitoral dessa magnitude. Um dos pontos de inflexão da campanha americana foi o papel estratégico dado a essas novas mídias. Neste artigo, a intenção é aprofundar o conhecimento do mundo virtual, nem sempre tão visível para aqueles que não estão intensamente conectados, e mostrar a importância de abrir canais de diálogo com o internauta-eleitor.
Provavelmente, vivemos o processo de transformação tecnológica mais radical de todos os tempos, uma mudança na forma como as instituições se comunicam com os indivíduos e como estes se comunicam entre si, e em como a informação é processada e transmitida: de uma situação de "channel centric", em que as pessoas simplesmente assistiam ao que a TV estivesse mostrando, para uma época de "consumer centric", em que o consumidor decide o que, como e onde vai consumir mídia e informação, por conteúdo de interesse.
Até pouco tempo atrás, recebíamos informação basicamente pela TV e comentávamos sobre ela com parentes, colegas de escola ou trabalho, amigos em mesa de bar.
Atualmente, a informação vem de diversas fontes e o consumidor conectado procura por referências via Google, Yahoo, etc. e, por vezes, complementa a pesquisa em blogs, sites e comunidades. Por outro lado, não precisa mais esperar o momento de encontrar seus amigos: se comunica com eles através de suas conexões digitais. Ainda mais inovador é o fato de que agora qualquer pessoa pode publicar ou simplesmente propagar uma notícia, tornando-se também um editor de conteúdo.
Parte dessa interconexão entre os indivíduos decorre de fenômenos colaborativos. Há registros de redes sociais desde meados da década de 80, mas só no novo milênio elas definitivamente se consolidaram. O MySpace foi lançado em 2003 e atingiu em junho 130 milhões de visitantes únicos; em 2004 surgiu o Facebook, que atualmente tem 340 milhões de visitantes únicos e é o maior site de relacionamento do mundo e o terceiro maior site da internet. A comunidade virtual Orkut também foi criada em 2004, inicialmente com foco nos internautas americanos. Hoje é líder no Brasil e o segundo mais visitado na Índia. Em 1990 o número de blogs era estimado em 50. No fim de 2000 eram milhares, em 2003 saltaram para algo em torno de 2,5 a 4 milhões. Atualmente, há cerca de 112 milhões de blogs, com a média de 120 mil novos blogs diários. Acrescentamos dois outros fenômenos: a Wikipédia (enciclopédia multilíngue on-line colaborativa), fundada em 2001, hoje tem 13 milhões de artigos publicados em 260 idiomas (3 milhões de verbetes em inglês e 500 mil em português) e o YouTube (site de compartilhamento de vídeos), fundado em 2005, em janeiro tinha 101 milhões de acessos únicos que assistiram a 6,4 bilhões de vídeos (fonte: Wikipédia).
Não há como negar o caráter massivo dessa nova mídia a partir do número de pessoas que acessam a internet. No Brasil, estudo realizado pelo Ibope Nielsen em março apontou o total de 62,3 milhões de usuários de internet, gerando resultados impressionantes. A comparação do Brasil com o resto do mundo surpreende até mesmo os mais iniciados.
Nesse cenário, difícil imaginar o eleitor de 2010 se contentando com os programas eleitorais veiculados na TV e rádio, com as caravanas, os comícios, os "santinhos". O eleitor-internauta deseja participar, opinar, influir na plataforma de seus candidatos e no debate eleitoral como um todo. Neste, se bem conduzido, pode se delinear a futura pauta nacional. O grande diferencial das mídias digitais é a interatividade; no caso do Twitter, por exemplo, não basta só postar mensagens, é preciso responder a elas. Alguns candidatos têm usado esse canal como um diário, relatando fatos do cotidiano, o que é positivo, na medida em que o aproxima do eleitor, mostra um lado "cidadão comum", humaniza-o.
No entanto, o forte do Twitter é sua função jornalística, espécie de "panfleto" do ciberespaço. É nas redes oficiais que se dá efetivamente o debate. Assim, o Facebook tem um formato moderno a ser explorado e o Orkut, um papel mais massivo e com maior penetração nas classes de menor poder aquisitivo. Isso sem esquecer o celular, com previsão de atingir, no fim do ano, 170 milhões de aparelhos habilitados no Brasil, numa proporção de 87,4 aparelhos para cada grupo de cem habitantes.
O desafio é tirar proveito de cada mídia, produzindo a melhor "química" entre elas. A televisão tem um papel fundamental: a atitude do telespectador diante da TV não é passiva, de alguma forma ele está sendo impactado pelas mensagens. Para consolidar o voto, porém, o eleitor tem de falar sobre o candidato. Exatamente aí entram as mídias digitais, repercutindo o que estiver sendo apresentado nos programas eleitorais na TV.
Como foi dito anteriormente, as redes sociais na internet substituem em parte as "conversas de bar", com a vantagem de apresentar maior frequência e abrangência.
Em recente entrevista, um dos principais coordenadores políticos no país comentou que campanha eleitoral é comunicação na qual "a regra de ouro é o convencimento, a sedução, a capacidade de atrair apoiadores e eleitores". Estamos de acordo e convencidos de que os meios digitais facilitam esse propósito.
Conduzir as campanhas para atender a esse novo cenário nos parece um dos grandes desafios de 2010. A arquitetura dessa campanha precisa ser multifacetada. Os sites oficiais (tanto na web quanto no celular) têm de facilitar a busca de informações sobre o candidato, permitindo ao eleitor dialogar com a campanha, publicando opiniões e comentários. Para isso, o site tem de ter vocação social com foco no relacionamento dos usuários entre si (ferramentas 2.0), um layout que convide à interatividade (fácil acesso, jeitão mais de comunidade do que de portal, explorando o fator "familiaridade"). Com a sanção do presidente Lula da revisão da legislação eleitoral, a internet pode vir a ser um eficiente veículo de arrecadação de contribuição financeira e prestação de contas ao eleitorado. Dada a conjuntura atual, tudo indica que o tema "transparência" será relevante nas próximas eleições.
Se sensibilizarem os internautas, as mensagens dos candidatos deverão repercutir nas redes sociais, blogs e microblogs (Twitter). Essa inserção nas "conversas" entre os usuários das redes sociais foi fator-chave da vitoriosa campanha do presidente Obama: como apenas 25% dos seus apoiadores estavam presentes no site oficial, a campanha foi buscar os demais 75% nas redes sociais, expandindo o universo potencial de mobilização e adesão. Quanto mais segmentada for a comunicação, maior a chance de diálogo – os internautas estão se acostumando, e gostando, de ser tratados "individualmente".
Estudos indicam que campanhas on-line partindo de blogs ou outras redes sociais podem ter um impacto 500 vezes maior do que se partissem de sites oficiais. Vale lembrar que mais de 60% dos jovens brasileiros estão on-line, segmento propagador por excelência.
Como rege a tradição brasileira, a mesa de bar vai continuar sendo um espaço democrático de debate dos grandes temas nacionais, mas a dimensão e o alcance do diálogo nas redes sociais poderão contribuir com mais transparência e votos mais conscientes nas eleições de 2010. Os deputados e senadores fizeram a sua parte. Cabe agora aos candidatos e seus estrategistas ocuparem esse espaço.
Dora Kaufman é ex-diretora da AgênciaClick e mestranda em semiótica pela PUC-SP.
Pedro Cabral é fundador e CEO da AgênciaClick
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